Já é muito conhecida a fama dos funcionários públicos no Brasil: arrastam suas tarefas e fingem que trabalham. Conheci raras e gratas excessões. Mas não quero falar de funcionalismo público e sim dessa postura pouco entusiasmada e comprometida na vida.
Quantas vezes você surpreeendeu a si mesmo fazendo as coisas mais ou menos?
“Vou fazer como der”, “talvez eu vá”, “quem sabe um dia”, “é tão difícil, né?”. Parece tudo meia-boca e pela metade.
Parece que está cansada de dar um passo a mais e sempre reclamando que as pessoas dão um passo a menos.
Se você tem um impasse na vida quem deve dar o passo a diante? “Mas será que vai dar certo?”
Que importa se vai dar certo? Só o fato de tentar coloca sua mente sob outra perspectiva.
Me lembro que já estava clinicando logo que sai da faculdade. Muitos colegas atribuiram que tive sorte em ser chamado para trabalhar num consultório que tinha toda a estrutura pronta. Não atribuo isso a sorte de maneira nenhuma. O que eu fiz foi trabalhar incessantemente durante anos de faculdade sem nenhuma intenção que não fosse aprender tudo o que os professores ensinavam e muito mais.
A maior parte de meus colegas ia para os bares em volta do Mackenzie e muitas vezes fiquei tentado a fazer o mesmo. Com certeza tenho poucas histórias engraçadas para contar e sei que eles foram mais felizes do que eu, mas eu quis ser feliz de outro jeito. Não os condeno ou me engradeço (quem teria orgulho de ser um sapo de for a?), foram trajetórias diferentes. Eu estava na faculdade, queria dar um passo a mais nos estudos.
Eu devorei quase 2 a 3 livros por semana na faculdade além de estudar as matérias comuns. Em 1 mês lia de 10 a 12 livros, em 1 ano de 120 a 144 livros (as bibliotecárias me adoravam hahahaha) em 5 anos li cerca de 700 livros. Alguém me obrigou? Nunca. Era um prazer enorme, pois sabia que eu precisaria conhecer tudo o que fosse possível entender sobre a natureza humana.
Li romances de ficção e não-ficção, Psicologia, Medicina, Sociologia, Antropologia, Artes, Religiões, Arquitetura, Filosofia e até matérias de Robótica. Eu sabia que lidaria com gente e quanto mais pudesse saber o que já tinha sido dito sobre isso. Lógico que isso me rendeu a fama de nerd deslocado. Mas era o mínimo que eu podia fazer, não tinha dinheiro para mais nada, estudar era a única saída. Quando me falavam que eu era inteligente isso me aborrecia, pois pressupunha que eu aprendia fácil, sem esforço e por isso ninguém poderia se comparar. A verdade era simples: eu sempre me esforcei além dos meus limites. Dormia pouco, me alimentava mal e não ficava com as garotas (sem nenhum orgulho disso, era lastimável de ver hahhahaha). Mas meu mundo interno estava sendo abastecido como nunca e as melhores ideias vieram daquela fase. Até me rendeu uma namorada.
Hoje conto com mais de 8 mil horas de atendimento clínico realizado em 7 anos e sinto a diferença de tudo o que fiz naquela fase. Foi determinante. Não sou um gênio, sou um trabalhador incansável da mente humana, nem sempre acerto, muitas vezes falho em minhas melhores intenções. Aprendo com meus erros e não desisto, mesmo nos meus dias ruins.
Me espanta perceber que muitas pessoas querem resultados extraordinários e cheios de privilégios sendo que fazem o mínimo possível.
Resultados incomuns pedem esforços repetitivos, não garantidos e continuados durante anos.
Experimente reservar um dia todo dando um passo a mais em tudo o que fizer?
Agora imagine levar uma vida inteira assim?
Mas se você pode passar o resto da vida se queixando da sorte. Ficará especialista em se queixar passivamente. Vá em frente, como todo funcionário público, continue batendo o ponto, mas lembre-se é sua vida que está em jogo.

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